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Marcos Resende Pensamento

Marcos Resende Pensamento

Roberto Campos

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Índice Pensamento ◦ Índice Geral

 01.
É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: bons cachês em moeda forte; ausência de censura; e consumismo burguês. Filhos de Marx em transa adúltera com a Coca-Cola. 

02.
A todos os aniversariantes é lícito formular um desejo, ainda que inatingível, frívolo ou paranóico. Se me perguntarem que voto fazer em meu aniversário, eu parafrasearia, num contexto menos trágico e mais vaidoso, o que disse Malraux: 

"O mundo começou um dia a ficar parecido com os meus livros". Malraux escrevera sobre o perigo, o combate e a revolução, e o mundo logo depois mergulhou na rebelião e nas guerras. As minhas guerras foram incruentas, guerras contra a inflação e o subdesenvolvimento. Ficaria mais feliz que Malraux. se o país um dia ficasse um pouco mais parecido com os meus planos: o plano do desenvolvimento com estabilidade, o plano da democratização das oportunidades.
(1967, ao completar 50 anos) 

03.
À parte o doce exercício de xingar os americanos em nome do "nacionalismo" — coisa que nos exime de pesquisar as causas do subdesenvolvimento e permite a qualquer imbecil arrancar aplausos em comícios —, poucos esportes haverá mais deleitosos do que atribuir as nossas frustrações à presença dos militares na administração e na polícia. Um pouco mais de autocrítica, entretanto, nenhum mal faria à classe "política". (1967)

04.
O mundo soviético não poderá indefinidamente manter o gênio aprisionado na garrafa: à descentralização das decisões econômicas terá de corresponder mais cedo ou mais tarde o abandono do "centralismo democrático". (1968)

05
O diabo é que uma pequena inflação é como uma pequena gravidez. (1968)

06
Os militares só entraram em cena "chamados" pelos políticos, e, ante o fracasso da classe política, é extremamente improvável que a retirada militar, por desejável que pareça, elimine miraculosamente a "crise". (1968)

07.
Sem dúvida, Castello Branco, como ditador, merece um prêmio de originalidade. Ao que se saiba, foi o único autoritário da História que em Ato Institucional cassou do próprio punho a faculdade de reeleger-se, mesmo antes de completar um período regular de governo. (1968)


08.
No socialismo as intenções são melhores que os resultados, e no capitalismo os resultados melhores que as intenções. (1968)

09.
O camelo é um cavalo planejado por um comitê de economistas; nem por isso é um animal inútil. (1968)

10.
A psicologia do berçário que herdamos do Hino Nacional ("gigante... deitado eternamente em berço esplêndido... ") e o ufanismo das riquezas naturais (as quais são apenas recursos à espera de investimentos), que mamamos nos livros escolares, têm agido como narcotizantes da vontade nacional de desenvolvimento, transformando-nos no país do futuro, enquanto outros afanosamente conquistam o presente. (1969)


11.
Em minha recente e amargurada encarnação burocrática, como ministro do Planejamento, fui acusado de fúria legiferante. Labutando hoje na iniciativa privada, verifico que a acusação estava longe de ser imerecida. (1969)

12.
Entre os economistas e os pseudoeconomistas da América Latina, é comum chamar pejorativamente de ortodoxas, as doutrinas que a gente não entende ou de que não gosta. (1969)

13.
O destino cruelmente me privou de dois interessantes esportes da esquerda festiva. Um deles é apressar a destruição do capitalismo, saboreando-lhe os vícios. Outro é exibir antiamericanismo, com vários subprodutos interessantes: cura de complexo de inferioridade, exibição de "masculinidade nacionalista" e absolvição automática dos pecados pelos "padres de passeata" de que nos fala Nélson Rodrigues. (1970)

14.
Um processo inflacionário agudo é uma guerra civil incruenta. (1970)

15.
A verdade é que o socialismo é mais eficaz como doutrina política de captura e manutenção de poder do que como técnica de desenvolvimento equilibrado. (1973)

16.
Não há racionalidade econômica que resista à alta do feijão. (1979)

17.
O comunismo é bom para sair da miséria, mas incompetente para nos levar à riqueza. (1985)

18.
Estatização no Brasil é como mamilo de homem: não é útil nem ornamental. (1985)

19.
O imbecil é aquele que não muda. Mudei e aprendi. Muitos dos meus críticos nem mudaram nem aprenderam. (1986)

20.
A ignorância de Ulysses Guimarães em assuntos econômicos é desumana. (1987)

21.
Empresa privada é aquela que o governo controla, empresa estatal é aquela que ninguém controla. (1987)

22.
Temos de tirar o governo do cangote do povo. (1988)

23.
Enquanto o cruzado pretendia abolir a inflação por decreto, a Constituição quer acabar com a pobreza pela lei. (1988)

24.
Congelamento de preços é como ditadura: fácil de entrar, difícil de sair. (1989)

25.
A diplomacia é como um filme pornográfico: é melhor participar do assistir. (1989)

26.
A integração brasileira na economia internacional parece ser uma alternativa de que não poderá fugir o próximo governo da República. (1989)

27.
Marx foi o pior dos profetas: vaticinou a explosão do capitalismo e o que ocorreu foi a implosão do socialismo. Aliás, o iracundo profeta que denunciou a espoliação burguesa era um espoliador nato. Vivia à custa de Engels e, em vez de botar salário no bolso de sua pobre empregada em Londres, botou-lhe um filho no ventre. (1989)

28.
Exceto no Brasil, onde as idéias chegam com atraso como se fossem queijos que necessitam amadurecimento, a social-democracia não é percebida como último reduto do dirigismo, e sim como o primeiro capítulo do liberalismo. (1990)

29.
A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. (1990)

30.
A abertura econômica, no Brasil, tem a coragem do carneiro e a velocidade da tartaruga. (1991)

31.
Só há três saídas para o país: Galeão, Cumbica ou liberalismo. (1991)

32.
Quando cheguei aqui no Congresso, queria fazer o bem. Hoje acho que o que dá para fazer é evitar o mal. (1992)

33.
O Brasil me parece ser o único país do mundo onde ser de esquerda ainda dá uma conotação de prestígio. (1993)

34.
O governo não é uma orquestra afinada. É um forró com muitos zabumbeiros. (1993)

34.
Para Ulysses Guimarães, o supremo valor era a relevância política. Para mim, a consistência econômica. Eu via no Ulysses um Dom Quixote da democracia. Ele me considerava um Sancho Pança da economia. Juntos poderíamos ter atacado mais do que moinhos de vento. Mas, navegamos em barcos separados no comboio do Brasil, ao longe de meio século, em sol, bruma e mar revolto, sem um mínimo de sinalização. (1994)

35.
O ideal é que a Igreja, políticos, sindicalistas e nacionalistas se esforcem menos por nos fazer o bem. Ficaríamos menos mal. (1995)

36.
A Petrobrás não é apenas uma empresa industrial. É um instituto de previdência, pois 88% dos lucros são doados aos funcionários, e também um paraíso fiscal, pois não paga imposto de renda e os dividendos do Tesouro são de 1% ao ano. (1995)

37.
Fernando Henrique foi dizer que as esquerdas são burras. Isso já faz tempo que não é segredo. Até que ele foi suave: não disse que são totalitárias. (1995) 

38.
O Antônio Carlos Magalhães tem senso da jugular. Ou seja: sabe onde atacar para matar. (1995)

39.
Esse negócio de parceria é coisa de homossexual. Cliente, então, é coisa de prostituta. E terceirização tem tudo a ver com corno. (1996)

40.
O FGTS é um carneiro que virou bode. Criei o carneiro, mas não sou responsável pela sua metamorfose em bode. (1996)

41.
O Plano Real é um avião com bom desenho aerodinâmico, mas decolou com pouco combustível. (1996)

42.
O ministro Sérgio Motta é um dínamo verbal, mas uma lesma operacional. (1996)

43.
Os elogios incondicionais que estou recebendo estão transformando esta solenidade em meu obituário. (1997, numa aula inaugural para 200 estudantes.)

44.
A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor.

45.
Minha geração fracassou. Estávamos certos de que no ano 2000 o Brasil seria um país desenvolvido. Mas fomos ultrapassados até pela Coréia do Sul.

46.
A racionalidade da política econômica no Brasil é inversamente proporcional ao preço do feijão.

47.
Brasília me parece uma cidade incestuosa. Há pouca miscigenação social.

48.
Economia é apenas a arte de alcançar miséria com auxílio da estatística.

49.
O governo nada pode dar que primeiro não tenha tirado.

50.
Moratória soberba foi o apelido irresponsável de uma safadeza internacional.

51.
Deus não é socialista. Ao dotar suas criaturas de inteligência e diligência díspares, o Criador fez da desigualdade parte inescapável da herança humana.

52.
Pior que a profanação do sagrado é a sacralização do profano.

 

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